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Como que roupa, com que roupa eu vou?

Comunicação JSB     
Thaynara escreve mensalmente para o Portal JSB
31/03/2014

A roupa no ambiente social está longe de ser apenas um pedaço de pano.  Ela foi e ainda se mantém como uma prática cultural específica que é delimitada por costumes tradicionais, pelo capital, pela moda e por nossa condição social. Definitivamente, as pessoas que vivem em sociedade não se vestem somente para cobrir seus corpos; elas se cobrem por vários motivos, seja para fazer parte de cerimônias comemorativas, para diferenciação de gênero, para hierarquizar os trabalhadores, para se protegerem do clima e assim por diante. Resta a nós compreender até onde as roupas são parte da nossa forma de expressão (uma necessidade legítima) e quando elas cumprem um papel de restrição da nossa liberdade.

Na Mesopotâmia, as escravas, criadas e prostitutas eram proibidas de cobrir seus rostos, como sinal de impureza e falta de mérito e, se o fizessem, seriam castigadas. Assim seguiu a história, na qual a roupa é utilizada para definir o caráter das mulheres, dizendo quando podíamos ou não usar um tipo de roupa. Sempre associando a pureza e a honra da mulher a não exposição do seu corpo dando, por fim, a punição “necessária” às mulheres quando “os acordos sociais” não eram seguidos. Acordos nos quais, historicamente, não fomos agentes ativas e, nem após conquistarmos o direito de participar da definição de normas sociais ainda não conseguimos finalizar a violência que sempre é revivida por resquícios de tais regras.

Todos os dias, lutamos contra represálias e ataques, sejam físicos, psicológicos ou morais pelas roupas que usamos. O que assusta é sabermos que esse não é um pensamento isolado. Constitui-se assim uma sociedade hipócrita, que nos diz que “temos liberdade de gênero”, sociedade que por lei nos chama de cidadãs livres, mas que nos olhos, pensamentos e palavras, possuem uma carga machista e autoritária que ainda se sente no direito de ter espaço de decisão sobre como devemos lidar com nossos corpos.

Como "pimenta no olho dos outros" é refresco, vale ressaltar: a violência física não surge na sociedade sozinha; ela é amparada por diversos tipos de preconceitos e violências levadas. Toda vez que você, homem ou mulher, subjugar uma mulher pela roupa que está usando, associar um problema de caráter à roupa da mulher, ou deslegitimar uma mulher no espaço público pela roupa que ela usa, saiba que é mais um colaborador das absurdas violências que as mulheres sofrem e são tidas como culpadas.

Em alguns aspectos, somos mais livres do que algumas já foram, mas de antemão avisamos: isso não nos basta! Queremos liberdade plena, sem restrição de ir e vir, sem violência por fazermos nossas próprias escolhas. Não aceitamos mais ouvir “mas também olha como estava vestida”, aceitar isso seria da nossa parte abdicar da autonomia dos nossos próprios corpos.

O apelo do movimento feminista não é em nome de uma nova padronização de tamanhos de roupa, não queremos todas de minissaia, queremos todas com direito de decisão! Essa é uma luta não só pela autonomia da nossa vestimenta, mas por emancipação do patriarcado e respeito!

 

Thaynara Melo Rodrigues é acadêmica de Biblioteconomia na Universidade de Brasília e secretaria-geral da JSB/DF 

 

Autor: Thaynara Melo
 
 
 
 
 
   
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